

Com o crescimento do uso desses veículos aéreos não tripulados, o Jornalismo caminha para um novo patamar de contar histórias através da experiência tecnológica.
Eles ainda trazem aquela sensação futurista, mas já são tecnologias comuns para diversão, trabalhos de fotografia e filmagem, além é claro, para segurança. Os drones ganharam espaço nos últimos anos e receberam inúmeras utilidades desde sua criação. Se a princípio sua principal função era servir como equipamento militar, hoje já se pensa em até realizar entregas com essas máquinas.

Nesse cenário uma nova possibilidade vem surgindo de forma tímida e gradual: a utilização de drones no jornalismo. Seja para trazer uma experiência mais dinâmica para quem consome a informação ou para alcançar regiões e histórias de difícil acesso para os jornalistas, os drones estão despontando como uma ferramenta essencial do “kit” de jornalismo, principalmente na área do Jornalismo Imersivo, que visa criar uma experiência profunda de sentidos ao ter contato com algum tipo de conteúdo informativo. O conceito de Jornalismo Imersivo surgiu recentemente com a evolução da tecnologia. Quem defende esse novo modelo vê nos recursos tecnológicos novas possibilidades de interação do espectador com a história, contribuindo para a trazer de volta o envolvimento emocional com o acontecimento, quebrando a barreira da indiferença que a própria tecnologia contribuiu para a construção.
Através da utilização dos drones, jornalistas podem hoje contar histórias mais ricas em detalhes de imagem e vídeo. As coberturas podem ganhar uma nova perspectiva através das possibilidades de captação que a máquina oferece. Em uma cobertura de catástrofes, por exemplo, pode mostrar ao público imagens de áreas afetadas e que estejam isoladas, o que provavelmente não seria possível de captar somente com um operador de câmera. Já em manifestações e situações de conflitos a tecnologia permite que a notícia seja reportada sem que seja preciso colocar o profissional em risco no meio aos protestos. Tudo isso permitiria que a cobertura e apuração dos fatos pelos veículos de comunicação possam ser mais completas e imersivas, inclusive para a mídia independente, que na maioria dos casos, não possui recurso para utilização de helicópteros como complemento para suas reportagens.

Contudo, tal solução levanta questões éticas e funcionais. A maioria dos países no mundo ainda não possuem uma regulamentação específica para os drones e por isso seu uso se torna experimental e até restrito. Devido a sua característica militar, também assusta muita gente a ideia de uma máquina espiã voando sobre suas cabeças e a sensação de que sua privacidade poderá ser violada a qualquer momento.
Para Stijn Postema, jornalista holandês, os drones podem se tornar uma ferramenta auxiliar do jornalista, trazendo apurações mais precisas e possibilidades maiores de coletas de dados para o jornalismo investigativo. Ele ressalta que a mídia tradicional ainda tem receio dessa tecnologia, mas que vê um futuro promissor para os drones no jornalismo: “É surpreendente que a mídia tradicional seja tão lenta e cautelosa para adotar novas tecnologias. Uma explicação pode ser que eles estejam com muito medo de fazer algo que prejudique sua reputação. O que me surpreendeu ainda mais foi que o drone tem um potencial para ser disruptivo na indústria de filmagem, substituindo guindastes e helicópteros até um certo nível.”
Quem já tem experiência com a utilização dos drones na apuração de reportagens, pensa que a tecnologia facilita, mas tem seus desafios. Patrícia Campos Mello, repórter especial da Folha de São Paulo, relata que as máquinas voadoras já lhe trouxeram alguns problemas durante coberturas. Ela relembra uma reportagem na fronteira entre o Quênia e a Somália onde o fotógrafo que a acompanhava quase foi preso por utilizar o equipamento: “…Ele colocou o drone só para testar e tinha uma casa do governador ao lado e eles já acham que você está espionando…A questão do drone sempre era um estresse”, relata.
Mesmo sendo uma tecnologia já tão presente em nosso dia a dia, principalmente para recreação, restam ainda muitas discussões a serem feitas para a utilização dos drones no âmbito jornalístico. A contribuição para o enriquecimento das histórias se mostra muito vantajosa para os veículos, trazendo mais aproximação do seu público com a reportagem e criando uma experiência de interação ainda maior. Por outro lado, a cautela para não infringir a ética e a privacidade alheia é um ponto que será levantando nos próximos anos com a aceitação da tecnologia como um equipamento auxiliar do profissional de imprensa e também por parte do público, que poderá ou não deixar de lado a ideia de que a principal função dessas máquinas é espionar.